PARTICIPAÇÃO DA SOCIEDADE

Gestão dos Recursos Hídricos

Comitê de Gestão da Bacia do Paranoá

Gestão Ambiental Participativa

Educação Ambiental

Projeto Margem

Centro de Informação Ambiental de Águas Emendadas e outros projetos governamentais

Programa de Educação Ambiental e Ecologia Humana

Educação ambiental e cidades sustentáveis

Programa de Educação Ambiental
e Ecologia Humana


Rosângela Azevedo Corrêa, historiadora,
mestre e doutora em antropologia social

O Programa de Educação Ambiental e Ecologia Humana (EA/EH) é uma atividade da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília que visa a desenvolver ações criativas e reflexivas voltadas para a construção de uma Pedagogia Ambiental de cunho vivencial, simbólico e práxico. Seu objetivo é auxiliar os indivíduos e grupos a lidarem com as questões referentes à gestão comunitária e institucional de problemas e processos ambientais.

A Pedagogia Vivencial e Simbólica está baseada na formação e no desenvolvimento da personalidade e inclui todas as dimensões da vida: o corpo, a natureza, a sociedade e as idéias, imagens e emoções. Um método de ensino centrado na vivência e não na abstração e que evoca diariamente a imaginação dos alunos e educadores para reunir o objetivo e o subjetivo dentro da dimensão simbólica ativada pelas mais variadas técnicas expressivas para vivenciar o aprendizado. (Byington, 1996)

O programa parte da premissa de que nos encontramos em um mundo em crise. Esta crise é caracterizada pela necessidade de reconhecer e rearticular nossas relações como pessoa, sociedade e espécie biológica, a partir de novas referências de pensamento e de visão de mundo que enfatizem o sentido de totalidade, auto-organização e complexidade.

A educação ambiental e a ecologia humana são instrumentos que nos permitem, ao mesmo tempo, pesquisar e catalisar as transformações nas individualidades e no coletivo. Portanto, é preciso diagnosticar as representações e padrões que emergem do imaginário dos grupos comunitários e institucionais, criando espaços de comparação, desconstrução e nova significação destes padrões.

O processo tem como suporte as idéias recentes de complexidade, multirreferencialidade, inteligência coletiva, as três ecologias (individual, coletiva e do humano e os demais seres vivos e não-vivos) e noções emprestadas à psicologia Junguiana, integradas em um diálogo interpretativo com símbolos, mitologias e filosofias de antigas culturas, buscando referências que possibilitem visões alternativas de mundo, de ser humano e de natureza. Buscamos uma nova ética, que parte da consciência humana para uma percepção atenta e inteligente do momento atual, estendendo a visão restrita dos “direitos humanos”, para a defesa dos direitos de todos os seres vivos e não-vivos.

O educador deve ser um pesquisador, pois ele precisa estar constantemente conhecendo e reconhecendo a realidade à sua volta, integrando a sua experiência à vivência coletiva, contribuindo assim para a busca de soluções para os problemas existentes.

O Programa de EA/EH tem como foco central a idéia de gestão/educação ambiental. Gestão aqui é entendida como um processo de organizar as relações, mediando os diferentes interesses e necessidades de indivíduos, grupos e sistemas vivos e tecnológicos, buscando viabilizar as ações concretas que permitam solucionar as situações detectadas como problemas por esses mesmos grupos, sem ignorar as diferenças de perspectivas individuais. Esta gestão é entendida como participação e diálogo entre os diferentes atores, em torno de situações concretas, historicamente compreendidas e geograficamente contextualizadas.

Os processos de gestão implicam a incorporação das idéias de parceria e conflito que perpassam as relações humanas e socioambientais. Estas idéias devem ser incorporadas como aspectos constitutivos das relações, que precisam ser administrados para propiciar a construção de projetos e ações coletivas contextualizadas no ambiente das comunidades e organizações atendidas pelo programa.

Os projetos desenvolvidos partem da idéia de que gestão é um processo educativo de articulação em rede, o que significa que, ao mesmo tempo que é necessário formar e capacitar cada participante como gestor, deve considerá-lo, também, como elo de uma cadeia de multiplicação destes processos junto ao seu contexto local. É papel do gestor a mediação entre os interesses das diferentes partes envolvidas nos processos de gestão, o que implica ações educativas que auxiliem a transformação dos conflitos em objetivos “comuns”, passíveis de se tornarem ações concretas.

Mobilização social

O Programa de Educação Ambiental e Ecologia Humana compõe-se de uma equipe interdisciplinar, integrada por professores da UnB, alunos de graduação e pós-graduação, e profissionais autônomos. Ele existe desde 1994, tendo surgido a partir de experiências pioneiras em escolas públicas na periferia do Distrito Federal. A perspectiva ambiental foi-se consolidando como preocupação ético-filosófica e como demanda dos grupos comunitários que vieram integrar-se às atividades do programa, tais como:

- Casa Aberta do Plano Piloto de Brasília - Instituição Educativa Governamental que atende meninos e meninas de rua;

- Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua - Equipe de Educadores do Distrito Federal;

- Grupo de analistas sociais da Caixa Econômica Federal;

- Grupo de funcionários da Fundação Universidade de Brasília;

- Grupo de adolescentes em conflito com a lei no Programa Socioeducativo de Prestação de Serviços à Comunidade (PESC), em convênio entre a UnB e a Vara da Infância e Juventude.

Em articulação com o trabalho junto aos grupos comunitários, realiza-se a formação dos alunos que participam do Programa, por meio de disciplinas curriculares vinculadas à área de Educação Ambiental da Faculdade de Educação, participação nos projetos e em grupos de estudos, e desenvolvimento de linhas de pesquisa sob a coordenação dos professores integrantes da equipe.

Intervenções na Bacia Hidrográfica do Lago Paranoá

Atualmente, no Programa EA/EH, realiza-se a pesquisa Mobilização Comunitária para Participação em Comitês de Bacias Hidrográficas: o caso da microbacia do Riacho Fundo, sob a coordenação da professora Laís Mourão, que tem como objetivo desenvolver uma metodologia de mobilização comunitária com vistas à capacitação, organização de grupos para a gestão ambiental e participação em comitês de bacias hidrográficas.

A linha teórica adotada é a da pesquisa-ação, que propõe um trabalho educativo e mobilizador dos potenciais subjetivos e objetivos das pessoas envolvidas, realizando também uma articulação entre o saber científico e os saberes e habilidades das comunidades locais.

A equipe externa que vai desencadear o processo deve ser constituída por pessoas das mais diversas formações e será aqui denominada de “grupo focalizador”, pois sua função é promover espaços de discussão, construção de conhecimento e realização coletiva de ações organizadas. O objetivo final é capacitar a comunidade para sua organização micropolítica e para a autogestão dos problemas ambientais locais.

Esta concepção alia a noção de educação com a noção de gestão ambiental, no sentido de capacitar grupos e lideranças para a auto-sustentabilidade das comunidades locais, promovendo sua autonomia em face dos processos de globalização, em três níveis básicos:

Econômico - geração de microprocessos de produção e trocas diretas de bens e serviços de subsistência no interior da própria comunidade, bem como o fortalecimento de mecanismos coletivos de geração de renda através da produção para o mercado. A intenção aqui é a de dar autonomia à subsistência familiar e grupal em relação às leis de mercado.

Político - Construção de mecanismos de democracia direta, onde cada pessoa/grupo possa exercer a plena cidadania, dispondo de um espaço coletivo de expressão e de escuta. A meta é formar lideranças identificadas com as questões locais e comprometidas com os laços comunitários de cooperação e solidariedade.

Cultural - Construção ou reforço da identidade local e abertura de espaços educativos onde seja forjado um vínculo intersubjetivo coeso entre pessoas que compartilham um mesmo ambiente, com problemas, necessidades e desejos comuns. Mobiliza a capacidade de gerar valores, atitudes e sentimentos próprios de uma ecoética.

O grupo focalizador deve atuar no sentido de gerar e capacitar grupos multiplicadores, sendo que ambos precisam desenvolver a qualidade de educadores-pesquisadores, procurando aplicar os seguintes princípios básicos:

Escuta sensível - capacidade de percepção e compreensão das diferenças pessoais, da diversidade cultural e da lógica do ecossistema onde se encontram.

Autorização - processo de construção pessoal e grupal da necessidade de mudança, gerando desejo de mobilização, cooperação e solidariedade para resolução de conflitos e criação de estratégias comuns de ação.

Ações em espiral - realização de ciclos de atividades envolvendo diagnóstico, planejamento, execução e avaliação de ações coletivas, visando o crescimento da capacidade organizativa da comunidade e a construção permanente e continuada de um conhecimento local sobre os problemas ambientais vividos.

     

Outra pesquisa em andamento é Cultura e Mudança Global: a Eco-história dos Cerrados e as Percepções sociais sobre a Degradação na Área de Proteção Ambiental das Bacias do Gama e Cabeça de Veado (Distrito Federal). Objetiva analisar o significado com que as pessoas têm o meio ambiente, como percebem o risco da destruição dos cerrados, e como entendem a relação do bioma com a sobrevivência econômica de todos. A partir das concepções ou interpretações sustentáveis, será feita a relação entre estas e um comportamento sustentável, de acordo com o gênero, a ocupação, origem, classe social, idade, religião e comunidade. Como os indivíduos se relacionam com o meio ambiente?

A pesquisa vai fornecer subsídios para que os indivíduos e grupos possam encontrar o caminho sociopolítico-administrativo de construção de uma sociedade fundamentada em níveis sustentáveis de interação socioambiental. Para tanto, o método adotado busca favorecer a conexão com a história pessoal e comunitária, e, através dela, com as forças essenciais da psique humana que se acham enfraquecidas pelos efeitos massificantes do modelo consumista vigente.

A eco-história é um eficiente meio para que sejam visualizados os sucessivos cenários em que se transformou a geografia econômica na região. Resgatar a eco-história da APA das Bacias do Gama e Cabeça de Veado não é panacéia, mas uma forma de abordagem que pressupõe a compreensão abrangente da Mãe-Terra e dos filhos humanos, com seus resultados, alguns salutares, outros iníquos sociológica, econômica e ecologicamente. Como bem afirma Bertran (1994), de tudo isto tiramos uma certeza: não saber mais o que é Centro-Oeste ou Brasil, por exemplo. Mas saber o que é o Cerrado e seus filhos, a eco-história humana das savanas brasileiras.

Desde 1990, a problemática dos cerrados aparece como preocupação sociológica, mas a forma de pensar os cerrados não é consensual, senão que é caracterizada por uma disputa entre os que pensam como uma fronteira agrícola a ser ocupada e aqueles que o pensam como um bioma-habitat a ser preservado. Essa dissensão não é resultado só do processo histórico de ocupação. Antes de tudo, as maneiras diferenciadas de pensar os cerrados balizam-se nos paradigmas que alicerçam as formas de conceber o progresso técnico e a relação sociedade-natureza.

No paradigma clássico, que sustentaria a primeira forma de perceber os cerrados, a relação entre ciência, sociedade e natureza coloca esta última como um objeto inanimado, a-histórico e passivo, enquanto que o objetivo da ciência seria dominar e controlar a natureza.

O novo paradigma fundamentaria uma forma de pensar os cerrados não só como base do desenvolvimento, mas também como habitat a ser preservado. Neste paradigma, está implicada a superação da dicotomia sujeito-objeto na relação ciência-natureza.

Frente a este desafio de desenvolver atividades econômicas compatíveis com os limites de suportabilidade do mundo natural, as APAs abrangem diferentes setores da nossa sociedade num debate público sobre a apropriação dos recursos naturais, como os órgãos governamentais, os grupos ambientalistas, a comunidade local, os investidores e os acadêmicos.

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